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quarta-feira, 4 de setembro de 2013

Messy Secrets

Prologo.

‘’Fugir nem sempre é a solução para tudo.’’
Aprendi isso com uma pessoa estranhamente especial e que, apesar de tudo, não desistiu de mim uma única vez. Muitas pessoas cometem erros hoje em dia, e posso dizer que eu sou uma delas, e ás vezes nem consigo enxergar esses erros. Acho simplesmente uma coisa normal. E sempre tem aquela pessoa que parece querer infernizar a sua vida ou te encher de coisas que nem você mesmo sabe o que significam. Mas no fundo, essa pessoa só quer ter ajudar.
Meu problema é encontrar essa pessoa, se é que ela existe na minha vida.
Talvez exista, mas só eu não vejo.
Eu só quero encontrá-la.

Flashback on/

Não é muito legal ficar andando pelas ruas completamente escuras á noite depois de uma bebedeira. Digo isso porque não é a ultima vez que cometo esse mesmo erro e acabo me metendo em alguma furada. E a maior delas - que não consigo esquecer, não importa o que eu faça - aconteceu á exatamente duas semanas atrás, no Central Park. Era quase meia noite quando finalmente sai de um pub recém construído no bairro. Haviam várias pessoas da escola, muitas que eu nem imaginava que um dia frequentaria aquele lugar. E o melhor em ir a uma festa de inauguração é os variados tipos de bebidas que eles servem. Afinal, querem agradar para que os outros voltem lá outra vez, e eu digo com toda certeza que eles podem contar com a minha presença. Aquile lugar era foda. Me deixei abusar de tequila e outra bebida de cor estranha que na hora não consegui pronunciar o nome. Conheci uns caras e acabei voltando para casa bêbada, sem conseguir carona. Sorte que minha casa era perto dali. O caso é que, naquela noite, quando passei cambaleando no Central Park, enxerguei em meio ao embaçado dois homens altos vestidos com grandes casacos pretos, tentando não ser identificados, suponho eu. Logo me apavorei, sentindo um embrulho esquisito no estômago. No meio deles, uma garotinha, aparentando ter uns dez anos, gritava pedindo por socorro.
Me apavorei.
Mesmo ainda sob o efeito do álcool, fiquei escondida ali, só esperando para ver o que eles iriam fazer com aquela pobre garotinha. Num estante seguinte em que tentei caminhar até lá - eu não faria isso se estivesse sóbria, só pra constar - um dos homens tirou um objeto prateado de dentro da calça, apontando para a cabeça da garota, que agora chorava apavorada. A cena era simplesmente horrível de se ver. Logo parei de andar, mas ao tentar procurar meu celular na bolsa e ligar para a polícia, o desgraçado tocou, começando uma música escandalosa que até hoje me arrependo de a ter colocado.
Me lembro exatamente o que aconteceu depois.
Os olhares frios e medonhos que aqueles caras me lançaram fizeram que meu coração disparasse. Eles me acharam ali em meio aos arbustos pinicantes. Pensei em correr mais seria muita burrice sabendo que eles estavam com uma arma na mão, então apenas fiquei parada.
- Garota, eu sei que você está ai. Saia e podemos aliviar as coisas pra você! - ouvia um deles gritando com sua voz grossa e firme. Preferi não contrariá-lo e fui até diante deles, mantendo uma distância segura, claro.
Percebi  que o homem mais alto vinha em minha direção, mas minha atenção estava completa na garotinha que lutava para de desviar dos braços do outro que ainda apontava a arma para ela. E o cara alto sorriu sacana, vendo que eu estava alegrinha e quando percebi as intenções dele comigo, corri até a garotinha. Sim, corri, sabendo de todos os riscos. Ah, qual é, me dá um desconto, eu estava fora de mim. Tentei a puxar para longe dele, mas antes que ao menos conseguisse encostar em alguma coisa, fui puxada para trás. Na hora não doeu, mas tinha certeza que doeria depois.
- SEU VIADO, SOLTA ELA AGORA! - gritei, me arrependendo em seguida. Eu tava pedindo pra morrer, só pode. Levei um tapa ardido na cara o que me fez cambalear pra trás, mas continuei em pé.
- Olha aqui, garota. - o mais alto, com uma mão pegou em meu queixo, o apertando e me fazendo olhar para aquela cara feia dele, e com a outra segurou meus pulsos, me deixando incapaz de os movimentar. - Se você fazer qualquer movimento suspeito, pode apostar que essa garotinha irá para o inferno, tá me entendendo?
Sentia minha cabeça latejar mais e mais forte e com dificuldade assenti devagar. Mas como sempre as coisas nunca dão certo pra mim. Eu não iria me mexer, não iria.....
Mas foi mais forte do que eu.
Meu estômago não aguentava mais os movimentos que fiz antes e sem me conter, eliminei tudo o que bebi durante a noite em cima do tênis fedido do cara. Eu me odiava naquela hora, dude. Porra, eu tinha que vomitar bem naquele momento em que eu menos podia me mover? E a única coisa que passou pela minha cabeça depois que me recuperei foi: ''fudeu''.
Cinco minutos depois eu estava ajoelhada com a garotinha nos braços depois de ver os dois filhos da puta fugindo dentre os arbustos. Chamei a ambulância, mas já era tarde.

Flashback off/

- Senhorita Lovato, você está acusada de cometer homicídio doloso contra uma criança indefesa. Por favor, me acompanhe.

E desde de esse dia, minha vida não era mais a mesma.

 Parte I

Meu dia começou sem graça como de costume.  Era da cama para o sofá, do sofá pra cama, o dia todo. Tem gente que acha que morar sozinha é maravilhoso e tudo mais, eu até achava isso, mas me sinto tão solitária ultimamente. Não tenho com quem conversar, nem com quem brigar pelo controle da televisão. E isso é muito ruim, acredite. Pela primeira vez, em pleno sábado, não estava com vontade de sair. Não estava com vontade de encarar as pessoas e ser amigável. Mas também não poderia ir muito longe, pois era vigiada 24 horas por dia. Sim, desde o dia em que fui acusada injustamente daquele assassinato no Central Park, fui obrigada a permanecer perto de casa por um tempo enquanto meu julgamento não acabasse por completo, me deixando livre de toda essa acusação. E o que eu poderia fazer se a única testemunha que tinha para me defender morreu no dia do acontecido? Pelo menos eu sabia que havia pessoas - poucas - que acreditavam na minha inocência. Apesar de tudo isso, acordei hoje sentindo que hoje seria diferente. Não me pergunte por quê, ou como, porque nem eu mesma sei. Só espero que esse dia seja melhor do que os outros, é só isso que eu espero....
Agora estava eu, deitada no sofá com um pote de brigadeiro no colo e assistindo televisão – ‘tá ai uma coisa boa de se morar sozinha, com certeza minha mãe não me deixaria comer brigadeiro logo de manhã. Na tevê não passava nada de interessante, até os comerciais eram mais legais do que os programas de sábado de manhã.
Na verdade nem sei porque acordei tão cedo hoje.
Ainda era somente dez e meia da manhã, nem as crianças de hoje em dia acordam a essa hora. Olhei para o pote de brigadeiro, já quase vazio e senti sede. Quem não sente depois de se entupir de doce, não é? Vou assumir que sou chocólatra com muito orgulho, e tenho pena de quem acha que chocolate faz mal. Coitados, não sabem o que estão perdendo...Mas antes mesmo de conseguir caminhar até a cozinha, escutei a campainha tocando. Senti uma felicidade estranha quando soube que tinha alguém atrás daquela porta. Uma visita, era isso que meu cérebro dizia para meu coração solitário. Claro que também havia a possibilidade de ser o carteiro ou aquelas crianças sem noção brincando de apertar a campainha e sair correndo – sei disso pois já brinquei quando era pequena. Pois é. Mas eu ainda preferia acreditar que era uma visita. Bom, o único jeito de saber era abrindo a porta, e não pensei duas vezes em sair correndo em direção a ela, sem me importar em ajeitar a roupa que havia usado para dormir.
- Oi – falei olhando para uma garota que sorria segurando um pacote embrulhado. Ignorei meu alívio de ser realmente uma visita, mas essa garota eu não conhecia. Estranho. Ela tinha cabelo castanho escuro meio avermelhado e olhos escuros que chamavam a atenção para sua pele clara. Parecia não ser uma daquelas patricinhas idiotas da escola. E parecia também não saber sobre nada do que aconteceu ás semanas, por isso não demonstrou nenhum olhar de desgosto quando sorriu. Observei isso ao olhar seu All Star cinza claro surrado. Já gostei dela.
- Oi – ela disse sorridente. Ok, isso me pareceu bem estranho. Mas decidi sorrir também – Sou sua nova vizinha.
Nova vizinha? E desde quando meus antigos vizinhos se mudaram? Estou mesmo precisando sair de casa....Depois de um silêncio desconfortável tomar conta da nossa pequena conversa, decidi dizer alguma coisa para melhorar o clima. E ainda tinha o pacote que ela segurava que certamente seria algum tipo de doce de boas vindas. Típico de vizinhos querendo fazer amizades. Logo me animei.
- Nova vizinha? Bem-vinda, então. Meu nome é Demi. - me apresentei, tentando sorrir, mas logo senti minhas garganta arder um pouco seca. Até tinha me esquecido da minha sede. 
- Prazer, Demi. Me chamo Selena, e queria conhecer meus novos vizinhos. Sabe como é, sou uma pessoa super social e amo fazer amizades. Só não sei se sou legal, engraçada porque você sabe né, tenho que ser assim pra conseguir novos amigos e... Eu tô falando demais, né?
- Não, imagina. - tentei parecer menos irônico possível. - Você parece ser uma pessoa legal, não se preocupe.
- Ah, sério? Ok, então. Só passei aqui mesmo pra te entregar isso - me estendeu o embrulho com uma certa rapidez - E te convidar pra uma festa que vou fazer hoje a noite pra conhecer todos do bairro. E ai, vai querer vir?
No momento fiquei um pouco insegura. Claro, a casa dela era do lado da minha, não ficaria muito longe de casa, mas minha preocupação não era essa. Eu não sabia quem iria nessa festa, muito menos se ela conhecia alguém que me reconheceria. Poderia ser arriscado, mas uma parte dentro da minha cabeça gritava para que eu aceitasse esse convite e me divertisse pelo menos por um momento. E ouvir essa parte estava sendo uma opção tentadora.

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