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quarta-feira, 4 de setembro de 2013

Ao meio da noite, Demetria olhava algumas estrelas que já começavam a aparecer por completo pelo céu escuro e encoberto. Suas dúvidas e frustrações a atormentavam sem dó nem piedade diante de inúmeras perguntas que sua cabeça fazia ao se lembrar da última conversa que tivera com seus pais. Nunca havia desejado tanto que sua vida pudesse mudar completamente e ser uma pessoa normal. Uma adolescente normal. Mas a expressão de aflição em sua face mudava sempre que seus olhos passavam pela imensa mansão onde morava. Os quadros e estátuas antigas faziam sua cabeça trabalhar e concluir que não importa o que fizesse, sua vida era aquela e isso não mudaria.
Depois que cansou de ficar debruçada a janela de seu quarto - que era um dos maiores da casa, foi até o quarto á direita do seu, onde imaginava que sua irmã Melany dormia. Mas a garota se surpreendeu quando encontrou a outra sentada sobre sua cama, parecia um pouco chateada. A mais velha caminhou cautelosamente até perto de onde a irmã estava e ajoelhou em frente a cama, ajeitando um pouco seu vestido para que conseguisse ficar mais confortável naquela posição. Se surpreendeu quando Mellany não a olhou.
- Mell, como você tá?
Sua voz pareceu um pouco alto em meio aquele silêncio desagradável. Mellany, ao ouvir a pergunta e com um pouco de dificuldade, levantou seu olhar para Demetria, que  pode perceber seus olhos marejados. Logo, levou sua mão até o cabelo da garota, fazendo um carinho ali e assim mostrando que para ela poderia dizer qualquer coisa.
- Ouvi a conversa de vocês ontem á noite. - Mellany confessou, não se culpando por isso. Na verdade ela preferia não ter ouvido nada - Por que você não quer ser uma princesa, Demi?
Então era isso, o sofrimento da pequena era  em relação a decisão da irmã. Mas o que ela poderia fazer? Simplesmente não se encaixava nesse mundo de contos de fadas. Reparou no olhar curioso da irmã e percebeu que tinha que lhe dizer a verdade.
- Acho que não pertenço a esse mundo, sabe? De rei e rainha e essas coisas.
- Mas por quê? Eu não entendo...
- Essa vida de sempre depender das pessoas para conseguir alguma coisa, nunca fazer nada por conta própria. Eu quero uma vida sabe? Uma vida que não precise de pessoas para fazer coisas por mim e sim que eu tenha que correr atrás do que eu quero. E eu não quero ser uma princesa.
Mellany ouvia cada palavra atentamente, como se tentasse achar alguma buraco de indecisão entre elas. Mas nada fora encontrado. Demetria estava mesmo decidia. Então só o que lhe restava era apoiar a irmã.
- E por quê todos estavam com cara de enterro no final da conversa?
- Talvez foi quando lhes disse que queria ir a escola.
Mellany mordeu os lábio sem saber o que dizer.
- Mas você não estuda com nosso professor particular?
- O problema é esse, Mellany. Por que eu não posso estudar como uma garota normal, em uma escola?
As duas suspiraram. Uma ainda queria entender a dificuldade que a irmã encontrava em ser uma princesa, enquanto a outra suspirava por não ser a filha mais nova.
- Tudo bem, se você quer assim. Mas me promete que não vai nos abandonar?
- Esse era o seu medo? Que eu abandonasse vocês?
Com a confirmação triste de Mellany, Demi a abraçou dizendo que nunca o faria, nem que morresse por isso. E para a tranquilizá-la mais, cantou em seu ouvido uma música que as duas gostavam, e nomearam como a música somente delas. Naquela noite as duas dormiram no quarto de Mellany.

Com o Sol ardente entrando pelas frestas da janela descoberta pela cortina rosa do quarto de Mellany, Demi se levantou depois de se espreguiçar e caminhar de volta até seu quarto. Isso seria possível se não tivesse escutado antes o chamado baixo de sua irmã, coçando os olhos, também afetada pela claridade do quarto. Demetria voltou para perto da cama e pensou no que iria dizer da melhor forma possível. Mas nada de bom lhe passou por sua cabeça naquela hora da manhã.
- Minhas aulas começam hoje.
Para a surpresa de Demi, a pequena sorriu, balançando a cabeça concordando.
- Boa sorte, Demi.
Sorte? Demetria nunca acreditou em sorte.
Ao descer as escadas, Demi viu os empregados já postos em seus devidos lugares para começar o dia já os servindo. Aquela mesma rotina era ainda mais dolorosa quando via mais cedo. Ao repararem a presença da garota em direção a cozinha, todos já correram para lhe desejar bom-dia e perguntar se precisava de alguma coisa. Ela precisava era sair daquele lugar, isso sim. Dispensou o carregado café da manhã que a aguardava e comeu apenas uma maçã perfeitamente vermelha, colhida na melhor horta do país. Saiu, depois de pegar sua mochila e arrumar sua roupa, sem saber que aquilo não era assim tão adequado para uma escola.

Não queria, mas foi a escola na grande branca limousine da família. é claro que chamaria a atenção, mas naquele momento sua cabeça estava tão ansiosa para conhecer a vida de pessoas com a sua idade, mas com modos e jeitos completamente diferentes. Ao sair do carro, atraiu vários olhares invejosos e desconfiados, enquanto passava pelo portão do colégio mais bem falado da cidade. Ela torcia para que não a reconhecessem, e com isso não precisaria se preocupar, pois a maioria dali não se interessavam nos filhos(as) dos responsáveis pelo país. E os que se interessavam estavam muito desligados para perceber que havia uma alma real entre eles.
- Ei garota, tem certeza que você não deveria estar num desfile de moda?
- Quem fez o seu cabelo? Quero o telefone para quando eu quiser dar um novo penteado na minha cadelinha.
Demetria fazia de tudo para ignorar, mas parecia que a distância da sala de aula ficava cada vez mais longe. Depois de mais alguns - ofensivos - argumento sobre si, ela finalmente entrou na sala quase vazia onde foi avisada que começaria suas aulas. No fundo da sala seus olhos encontraram um garoto, concentrado enquanto lia um livro e nem percebeu a presença dela. Demi ficou com medo de, se percebesse também a ofenderia então preferiu assim. Mas como uma boa desastrada que era, ao puxar a cadeira para se sentar, um barulho agonizante dos pés da cadeira contra o chão da sala chamou a atenção do garoto.
- Te atrapalhei? Me desculpe.
 Ela pediu antes mesmo de esperar por uma resposta dele. Mas mesmo assim o garoto não disse nada. Talvez quando viu na aparência elegante de Demi pensou em ser uma novata que com certeza viraria uma líder de torcida dali a frente. Mal sabia ele da grande inocência que Demetria carregava consigo.
- Por que está me olhando desse jeito?
Ele a olhava com uma mistura de desprezo por não gostar de tipos de garota com ela, mas ao mesmo tempo que sua cabeça fazia pouco caso da menina, seus olhos simplesmente não conseguiam se desviar diante de sua beleza. Poderia estar exagerando....
- Não me atrapalhou, não se preocupe.
Demetria sentiu seu estômago lhe dar uma pontada ao ouvir a voz dele soar um tanto fria mas ainda sim suave, o que fez seus ouvidos pedirem por mais.
- Tudo bem.
E então os dois se calaram. Ele voltou a sua leitura e ela, bom, Demetria o observava discretamente tentando entender o que ele estava lendo. Sua atenção foi totalmente prestada aos alunos entrando apressados naquela sala depois de um alto som agudo saindo dos altos falantes espalhados pela escola. Todos repararam que havia alguém novo ali, mas preferiram não comentar nada. Demetria não os entendia. Poucos minutos depois, uma mulher de aparência envelhecida adentra a sala carregando uma bolsa repleta de livros. Uma professora tradicional, é isso o que ela era.
- Ora vejam, estava na diretoria quando fui avisada sobre a grande notícia mas a princípio não acreditei. E agora entro aqui e vejo...
A mulher olhava para Demi enquanto falava, fazendo a garota se sentir desconfortável diante daquela situação.
- Não acredito que a filha dos Lovato está aqui na minha sala!
Ao ouvirem Lovato sair da boca da mulher, todos começaram um burburinho alto entre eles e Demi se sentiu mais desconfortável ainda. Você é filha dos Lovato? O que está fazendo aqui? Seu lugar não é junto com as majestades? Quem é Lovato? Demetria sentia que iria enlouquecer. Mas uma voz que perturbava sua cabeça ainda não tinha se manifestado.
- Me diga criança, o que a fez se matricular na nossa escola?
- Queria conhecer melhor a vida dos adolescentes.
E inesperadamente a sala riu de forma sarcástica e Demi preferiu abaixar a cabeça.
- Espero que goste da escola, e faça muitos amigos. Não é classe?
A resposta foi feita por risadas outra vez. Só levantou para dizer seu nome e começar a aula.







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